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Pressostato: quem liga a bomba de incêndio sem ninguém apertar botão

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Mateus Beraldi ·26 out 2026 ·9 min de leitura

Quando alguém abre um hidrante, ninguém corre até a casa de bombas para apertar o botão de partida. A bomba de incêndio liga sozinha. Quem dá essa ordem é um equipamento pequeno, que cabe na palma da mão e quase nunca aparece com destaque na prancha: o pressostato.

Entender o pressostato é entender por que o sistema de hidrantes funciona sem operador. E também por que tantos sistemas, na vistoria, estão com o quadro de comando travado no modo manual.

O que é o pressostato da bomba de incêndio

O pressostato é um interruptor elétrico comandado por pressão. Ele fica ligado à tubulação de recalque, lê a pressão da água e abre ou fecha um contato elétrico. Esse contato vai até o quadro de comando, e é o quadro que dá a partida no motor da bomba.

Ele não bombeia água e não mede vazão. Faz uma comparação só: a pressão da rede está acima ou abaixo do valor regulado?

O modelo mais usado tem ajuste duplo. Um ajuste define a pressão de parada. O outro define o diferencial, que é a distância entre a pressão de parada e a pressão de partida. Exemplo: se a bomba deve desligar com 45 psi e ligar com 20 psi, o diferencial é de 25 psi.

Pressostato de bomba de incêndio com visor de duas escalas de ajuste, faixa de pressão e diferencial, e conexão roscada na parte inferior.
Pressostato de ajuste duplo. No visor, uma escala define a faixa de pressão e a outra, o diferencial entre parada e partida.

Um detalhe de unidade que confunde muita gente. O pressostato e o manômetro da casa de bombas costumam vir em psi ou kgf/cm². O projeto costuma trabalhar em mca ou kPa. Para converter: 1 psi vale cerca de 0,703 mca, e 1 kgf/cm² vale 10 mca. Assim, 45 psi são cerca de 31,6 mca, e 20 psi são cerca de 14,1 mca.

O ciclo: do hidrante aberto à bomba ligada

O sistema automático parte de uma condição: a rede de hidrantes fica pressurizada o tempo todo, mesmo sem ninguém usando. A partir daí, o ciclo é este:

  1. Com todos os hidrantes fechados, a rede está parada e pressurizada.
  2. Alguém abre um hidrante. A água sai e a pressão na rede cai.
  3. A pressão chega ao valor de partida. O pressostato fecha o contato e o quadro liga a bomba.
  4. A bomba fica ligada enquanto houver hidrante aberto.
  5. O hidrante é fechado e a pressão volta a subir. Em São Paulo, a jóquei desliga sozinha; a principal continua ligada até alguém desligá-la no painel da casa de bombas (IT 22, C.1.6).

Repare que a bomba não sabe que existe um incêndio. Ela só sabe que a pressão caiu. Por isso o pressostato precisa estar regulado de forma que uma queda de verdade sempre provoque a partida, e uma variação pequena não provoque partidas à toa.

Pressostato, bomba jóquei e bomba principal: a ordem de partida

Toda rede pressurizada perde um pouco de pressão com o tempo: uma junta que pinga, uma válvula que não veda totalmente, a variação de temperatura. Se a bomba principal fosse a única, ela ligaria toda vez que isso acontecesse.

Para evitar essas partidas, o sistema usa uma bomba pequena, a bomba de pressurização, chamada de jóquei. Ela repõe as perdas pequenas e mantém a rede pressurizada. Cada bomba tem o seu pressostato, e as pressões de partida são escalonadas: a jóquei parte primeiro, a principal depois e a reserva, se existir, por último.

Um exemplo real ajuda a visualizar. Num relatório de instalação de pressostatos em uma fábrica, em 2018, com uma bomba jóquei de 1,5 cv e duas bombas de 7,5 cv, os ajustes ficaram assim:

BombaLiga comDesliga com
Jóquei (1,5 cv)40 psi (cerca de 28 mca)50 psi (cerca de 35 mca), automático
Principal (7,5 cv)32 psi (cerca de 22,5 mca)Manual
Reserva (7,5 cv)28 psi (cerca de 19,7 mca)Manual

A lógica está na ordem. Um vazamento pequeno derruba a pressão até 40 psi e a jóquei resolve sozinha. Um hidrante aberto tira mais água do que a jóquei consegue repor. A pressão continua caindo, chega a 32 psi e a principal parte. Se a principal não der conta, a pressão chega a 28 psi e a reserva entra.

Esses números são daquela instalação. Não são valores de norma. Em cada projeto, as pressões saem da curva da bomba e do cálculo hidráulico da rede. O que se repete em qualquer projeto é o escalonamento: as faixas não podem se sobrepor.

Em São Paulo, a IT 22/2025 define quando a jóquei entra no projeto. Ela é obrigatória quando o sistema tem mais de seis saídas, com vazão máxima de 20 L/min, e é dispensada quando o reservatório de incêndio é elevado, qualquer que seja o número de saídas (C.1.15).

A mesma IT fixa dois parâmetros que conversam com o exemplo acima. A pressão máxima de operação da jóquei é igual à pressão da bomba principal sem vazão. E recomenda um diferencial de aproximadamente 10 mca (100 kPa) entre os acionamentos sequenciais (C.1.15.1).

Volte à tabela. Entre a partida da jóquei (40 psi) e a da principal (32 psi), a distância é de cerca de 5,6 mca. Entre a principal e a reserva, cerca de 2,8 mca. Num projeto em SP, essas faixas estariam mais apertadas do que a IT recomenda.

Quanto à bomba reserva, a IT 22 não a exige. O item C.1.1 pede pelo menos uma bomba.

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Onde o pressostato fica no barrilete

O pressostato fica na casa de bombas, ligado à tubulação de recalque das bombas, perto do manômetro. É ali que ele lê a pressão que a rede de hidrantes está recebendo.

A IT 22 define a montagem básica em volta de cada bomba: a montante, uma válvula de paragem (bloqueio); a jusante, uma válvula de retenção e outra de paragem (C.1.5). Na descarga vai um manômetro, e um manovacuômetro na sucção quando ela for negativa (C.1.17). Drenos e recursos de ensaio são dimensionados conforme a aplicação (4.11.6.3).

Casa de bombas de incêndio com duas bombas vermelhas, tubulação de recalque, manômetro, dois pressostatos instalados na tubulação e quadro de comando na parede.
Casa de bombas com bomba de pressurização (jóquei) e bomba principal, manômetro e um pressostato por bomba na tubulação de recalque. Imagem ilustrativa: em SP, a referência de montagem é a Figura C.2 da IT 22.

A posição exata da tomada de pressão do pressostato no cavalete aparece na Figura C.2 da IT 22. Consulte a figura antes de desenhar o detalhe da casa de bombas. Pelo item C.1.15.2, cada pressostato é ligado ao painel e à chave de partida da sua própria bomba.

No projeto, o que importa é que a prancha e o memorial deixem claro: quantos pressostatos existem, a qual bomba cada um pertence e quais as pressões de partida e de parada de cada um. Sem esses números, quem instala vai regular no improviso.

O que a norma pede de partida automática e de desligamento

Em âmbito nacional, o tema é tratado pela NBR 13714. Em São Paulo, a referência é a IT 22/2025 do CBPMESP, atualizada pela Portaria CCB 003/800/25, dentro do regulamento do Decreto 69.118/2024. Os itens abaixo são da IT 22. Confira a IT do seu estado, porque os detalhes mudam de um Corpo de Bombeiros para outro.

Estes são os pontos que mais afetam o pressostato e a partida das bombas:

  • Partida automática não é regra geral. A bomba elétrica pode ter acionamento automático ou manual (C.2.1). Quando é automática, o funcionamento é indicado pela simples abertura de qualquer hidrante (C.1.8), e a principal parte por pressostato (C.1.15.2). A única obrigação explícita de partida automática é o sistema com uma única bomba a combustão (C.3.12).
  • Tempo de resposta. A bomba deve chegar ao pleno regime em aproximadamente 30 s após a partida (C.1.9).
  • Partida manual sempre disponível. O painel tem botoeira para ligar manualmente (C.1.16), e a bomba automatizada precisa de pelo menos um ponto de acionamento manual em local seguro e de fácil acesso (C.1.7). Botoeiras junto a cada hidrante como forma de partida só valem até seis expedições (C.1.10), limite que não se aplica quando a bomba recalca de reservatório elevado (C.1.11).
  • Alimentação elétrica. O quadro da bomba é alimentado de forma independente do consumo geral, para que o desligamento geral não desligue o motor (C.2.7). A chave leva as indicações "ALIMENTAÇÃO DA BOMBA DE INCÊNDIO" e "NÃO DESLIGUE" (C.2.11).
  • Sinalização no painel. Para bomba elétrica: painel energizado, bomba em funcionamento, falta de fase e falta de energia no comando (C.1.16).

O desligamento é o ponto que mais se erra. Pela IT 22, a bomba principal ou de reforço automatizada, depois de partir, só pode ser desligada manualmente, no seu próprio painel de comando, na casa de bombas (C.1.6). A única que liga e desliga sozinha é a jóquei (C.1.15.2).

Isso tem consequência direta. Circulam roteiros de regulagem que ensinam a fazer a bomba principal desligar sozinha quando a pressão sobe. Em São Paulo, essa configuração contraria a IT 22. No relatório citado acima, as bombas principal e reserva ficaram com desligamento manual, o que coincide com a regra paulista.

Há ainda uma regra pouco lembrada sobre o próprio pressostato. A pressão de acionamento a que ele pode estar submetido é de, no máximo, 70% da sua maior pressão de funcionamento (4.11.7.2). Na prática, o pressostato escolhido precisa ter folga de escala acima do ponto em que vai atuar. A especificação dos instrumentos é do projetista (4.11.7.1).

Erros comuns com o pressostato no projeto e na instalação

1. Faixas de pressão sobrepostas. Se a pressão de partida da principal fica muito perto da faixa da jóquei, a principal liga por qualquer vazamento. Se fica acima, as duas disputam a rede. A IT 22 recomenda cerca de 10 mca entre acionamentos sequenciais (C.1.15.1).

2. Pressão de parada maior do que a bomba consegue atingir. Toda bomba tem uma pressão máxima, aquela que ela alcança com a saída fechada, sem vazão. É essa pressão que a IT 22 usa como teto para a jóquei (C.1.15.1). Se o pressostato da jóquei estiver regulado para desligar acima desse valor, ele nunca desliga. A regulagem correta parte da leitura dessa pressão no manômetro e fica um pouco abaixo dela.

3. Escala trocada. O manômetro tem duas escalas, psi e kgf/cm². Ler uma e regular pela outra gera um erro de 14 vezes.

4. Rede que não aguenta a pressão. Num dos casos que conhecemos, a dificuldade de ajuste do pressostato deixou a rede com pressão alta demais, e a tubulação de PVC foi danificada. A saída encontrada pela manutenção foi travar o sistema no modo manual. A rede precisa suportar a pressão da bomba sem vazão. Nos esguichos, a IT 22 limita a pressão a 100 mca, ou 1.000 kPa (4.8.8).

5. Sistema esquecido no manual. Depois de uma manutenção, o quadro fica com a chave em manual. Em um incêndio, ninguém vai lembrar. Um sistema em manual é um sistema que não parte sozinho.

6. Teste só na casa de bombas. Abrir a válvula de teste mostra se o pressostato atua. Não mostra se a rede entrega pressão no ponto mais crítico. O teste completo inclui abrir o hidrante hidraulicamente mais desfavorável, com mangueira e esguicho, por alguns minutos, e conferir se a bomba liga e se comporta como previsto. A inspeção do Anexo F da IT 22 inclui verificar se manômetros e pressostatos funcionam corretamente (item 2.7).

7. Desligamento automático na principal. Regular o pressostato da principal para desligar sozinho contraria a IT 22 em São Paulo (C.1.6). Ligar é automático. Desligar é manual, no painel da casa de bombas.

Para levar para a prancha

O pressostato é a peça que transforma uma rede pressurizada em um sistema automático. No projeto, ele pede três decisões claras: quantos pressostatos, em que ordem as bombas partem e quais pressões de partida e de parada. O resto é conferir o que a norma do seu estado exige para cada bomba.

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#PPCI#Hidrantes#Bombas de incêndio#IT 22#Pressostato
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