Quando alguém abre um hidrante, ninguém corre até a casa de bombas para apertar o botão de partida. A bomba de incêndio liga sozinha. Quem dá essa ordem é um equipamento pequeno, que cabe na palma da mão e quase nunca aparece com destaque na prancha: o pressostato.
Entender o pressostato é entender por que o sistema de hidrantes funciona sem operador. E também por que tantos sistemas, na vistoria, estão com o quadro de comando travado no modo manual.
O que é o pressostato da bomba de incêndio
O pressostato é um interruptor elétrico comandado por pressão. Ele fica ligado à tubulação de recalque, lê a pressão da água e abre ou fecha um contato elétrico. Esse contato vai até o quadro de comando, e é o quadro que dá a partida no motor da bomba.
Ele não bombeia água e não mede vazão. Faz uma comparação só: a pressão da rede está acima ou abaixo do valor regulado?
O modelo mais usado tem ajuste duplo. Um ajuste define a pressão de parada. O outro define o diferencial, que é a distância entre a pressão de parada e a pressão de partida. Exemplo: se a bomba deve desligar com 45 psi e ligar com 20 psi, o diferencial é de 25 psi.

Um detalhe de unidade que confunde muita gente. O pressostato e o manômetro da casa de bombas costumam vir em psi ou kgf/cm². O projeto costuma trabalhar em mca ou kPa. Para converter: 1 psi vale cerca de 0,703 mca, e 1 kgf/cm² vale 10 mca. Assim, 45 psi são cerca de 31,6 mca, e 20 psi são cerca de 14,1 mca.
O ciclo: do hidrante aberto à bomba ligada
O sistema automático parte de uma condição: a rede de hidrantes fica pressurizada o tempo todo, mesmo sem ninguém usando. A partir daí, o ciclo é este:
- Com todos os hidrantes fechados, a rede está parada e pressurizada.
- Alguém abre um hidrante. A água sai e a pressão na rede cai.
- A pressão chega ao valor de partida. O pressostato fecha o contato e o quadro liga a bomba.
- A bomba fica ligada enquanto houver hidrante aberto.
- O hidrante é fechado e a pressão volta a subir. Em São Paulo, a jóquei desliga sozinha; a principal continua ligada até alguém desligá-la no painel da casa de bombas (IT 22, C.1.6).
Repare que a bomba não sabe que existe um incêndio. Ela só sabe que a pressão caiu. Por isso o pressostato precisa estar regulado de forma que uma queda de verdade sempre provoque a partida, e uma variação pequena não provoque partidas à toa.
Pressostato, bomba jóquei e bomba principal: a ordem de partida
Toda rede pressurizada perde um pouco de pressão com o tempo: uma junta que pinga, uma válvula que não veda totalmente, a variação de temperatura. Se a bomba principal fosse a única, ela ligaria toda vez que isso acontecesse.
Para evitar essas partidas, o sistema usa uma bomba pequena, a bomba de pressurização, chamada de jóquei. Ela repõe as perdas pequenas e mantém a rede pressurizada. Cada bomba tem o seu pressostato, e as pressões de partida são escalonadas: a jóquei parte primeiro, a principal depois e a reserva, se existir, por último.
Um exemplo real ajuda a visualizar. Num relatório de instalação de pressostatos em uma fábrica, em 2018, com uma bomba jóquei de 1,5 cv e duas bombas de 7,5 cv, os ajustes ficaram assim:
| Bomba | Liga com | Desliga com |
|---|---|---|
| Jóquei (1,5 cv) | 40 psi (cerca de 28 mca) | 50 psi (cerca de 35 mca), automático |
| Principal (7,5 cv) | 32 psi (cerca de 22,5 mca) | Manual |
| Reserva (7,5 cv) | 28 psi (cerca de 19,7 mca) | Manual |
A lógica está na ordem. Um vazamento pequeno derruba a pressão até 40 psi e a jóquei resolve sozinha. Um hidrante aberto tira mais água do que a jóquei consegue repor. A pressão continua caindo, chega a 32 psi e a principal parte. Se a principal não der conta, a pressão chega a 28 psi e a reserva entra.
Esses números são daquela instalação. Não são valores de norma. Em cada projeto, as pressões saem da curva da bomba e do cálculo hidráulico da rede. O que se repete em qualquer projeto é o escalonamento: as faixas não podem se sobrepor.
Em São Paulo, a IT 22/2025 define quando a jóquei entra no projeto. Ela é obrigatória quando o sistema tem mais de seis saídas, com vazão máxima de 20 L/min, e é dispensada quando o reservatório de incêndio é elevado, qualquer que seja o número de saídas (C.1.15).
A mesma IT fixa dois parâmetros que conversam com o exemplo acima. A pressão máxima de operação da jóquei é igual à pressão da bomba principal sem vazão. E recomenda um diferencial de aproximadamente 10 mca (100 kPa) entre os acionamentos sequenciais (C.1.15.1).
Volte à tabela. Entre a partida da jóquei (40 psi) e a da principal (32 psi), a distância é de cerca de 5,6 mca. Entre a principal e a reserva, cerca de 2,8 mca. Num projeto em SP, essas faixas estariam mais apertadas do que a IT recomenda.
Quanto à bomba reserva, a IT 22 não a exige. O item C.1.1 pede pelo menos uma bomba.
Chegou aqui pelo direct? Este é o artigo que explica o pressostato da bomba de incêndio, do hidrante aberto até a partida automática.
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O pressostato fica na casa de bombas, ligado à tubulação de recalque das bombas, perto do manômetro. É ali que ele lê a pressão que a rede de hidrantes está recebendo.
A IT 22 define a montagem básica em volta de cada bomba: a montante, uma válvula de paragem (bloqueio); a jusante, uma válvula de retenção e outra de paragem (C.1.5). Na descarga vai um manômetro, e um manovacuômetro na sucção quando ela for negativa (C.1.17). Drenos e recursos de ensaio são dimensionados conforme a aplicação (4.11.6.3).

A posição exata da tomada de pressão do pressostato no cavalete aparece na Figura C.2 da IT 22. Consulte a figura antes de desenhar o detalhe da casa de bombas. Pelo item C.1.15.2, cada pressostato é ligado ao painel e à chave de partida da sua própria bomba.
No projeto, o que importa é que a prancha e o memorial deixem claro: quantos pressostatos existem, a qual bomba cada um pertence e quais as pressões de partida e de parada de cada um. Sem esses números, quem instala vai regular no improviso.
O que a norma pede de partida automática e de desligamento
Em âmbito nacional, o tema é tratado pela NBR 13714. Em São Paulo, a referência é a IT 22/2025 do CBPMESP, atualizada pela Portaria CCB 003/800/25, dentro do regulamento do Decreto 69.118/2024. Os itens abaixo são da IT 22. Confira a IT do seu estado, porque os detalhes mudam de um Corpo de Bombeiros para outro.
Estes são os pontos que mais afetam o pressostato e a partida das bombas:
- Partida automática não é regra geral. A bomba elétrica pode ter acionamento automático ou manual (C.2.1). Quando é automática, o funcionamento é indicado pela simples abertura de qualquer hidrante (C.1.8), e a principal parte por pressostato (C.1.15.2). A única obrigação explícita de partida automática é o sistema com uma única bomba a combustão (C.3.12).
- Tempo de resposta. A bomba deve chegar ao pleno regime em aproximadamente 30 s após a partida (C.1.9).
- Partida manual sempre disponível. O painel tem botoeira para ligar manualmente (C.1.16), e a bomba automatizada precisa de pelo menos um ponto de acionamento manual em local seguro e de fácil acesso (C.1.7). Botoeiras junto a cada hidrante como forma de partida só valem até seis expedições (C.1.10), limite que não se aplica quando a bomba recalca de reservatório elevado (C.1.11).
- Alimentação elétrica. O quadro da bomba é alimentado de forma independente do consumo geral, para que o desligamento geral não desligue o motor (C.2.7). A chave leva as indicações "ALIMENTAÇÃO DA BOMBA DE INCÊNDIO" e "NÃO DESLIGUE" (C.2.11).
- Sinalização no painel. Para bomba elétrica: painel energizado, bomba em funcionamento, falta de fase e falta de energia no comando (C.1.16).
O desligamento é o ponto que mais se erra. Pela IT 22, a bomba principal ou de reforço automatizada, depois de partir, só pode ser desligada manualmente, no seu próprio painel de comando, na casa de bombas (C.1.6). A única que liga e desliga sozinha é a jóquei (C.1.15.2).
Isso tem consequência direta. Circulam roteiros de regulagem que ensinam a fazer a bomba principal desligar sozinha quando a pressão sobe. Em São Paulo, essa configuração contraria a IT 22. No relatório citado acima, as bombas principal e reserva ficaram com desligamento manual, o que coincide com a regra paulista.
Há ainda uma regra pouco lembrada sobre o próprio pressostato. A pressão de acionamento a que ele pode estar submetido é de, no máximo, 70% da sua maior pressão de funcionamento (4.11.7.2). Na prática, o pressostato escolhido precisa ter folga de escala acima do ponto em que vai atuar. A especificação dos instrumentos é do projetista (4.11.7.1).
Erros comuns com o pressostato no projeto e na instalação
1. Faixas de pressão sobrepostas. Se a pressão de partida da principal fica muito perto da faixa da jóquei, a principal liga por qualquer vazamento. Se fica acima, as duas disputam a rede. A IT 22 recomenda cerca de 10 mca entre acionamentos sequenciais (C.1.15.1).
2. Pressão de parada maior do que a bomba consegue atingir. Toda bomba tem uma pressão máxima, aquela que ela alcança com a saída fechada, sem vazão. É essa pressão que a IT 22 usa como teto para a jóquei (C.1.15.1). Se o pressostato da jóquei estiver regulado para desligar acima desse valor, ele nunca desliga. A regulagem correta parte da leitura dessa pressão no manômetro e fica um pouco abaixo dela.
3. Escala trocada. O manômetro tem duas escalas, psi e kgf/cm². Ler uma e regular pela outra gera um erro de 14 vezes.
4. Rede que não aguenta a pressão. Num dos casos que conhecemos, a dificuldade de ajuste do pressostato deixou a rede com pressão alta demais, e a tubulação de PVC foi danificada. A saída encontrada pela manutenção foi travar o sistema no modo manual. A rede precisa suportar a pressão da bomba sem vazão. Nos esguichos, a IT 22 limita a pressão a 100 mca, ou 1.000 kPa (4.8.8).
5. Sistema esquecido no manual. Depois de uma manutenção, o quadro fica com a chave em manual. Em um incêndio, ninguém vai lembrar. Um sistema em manual é um sistema que não parte sozinho.
6. Teste só na casa de bombas. Abrir a válvula de teste mostra se o pressostato atua. Não mostra se a rede entrega pressão no ponto mais crítico. O teste completo inclui abrir o hidrante hidraulicamente mais desfavorável, com mangueira e esguicho, por alguns minutos, e conferir se a bomba liga e se comporta como previsto. A inspeção do Anexo F da IT 22 inclui verificar se manômetros e pressostatos funcionam corretamente (item 2.7).
7. Desligamento automático na principal. Regular o pressostato da principal para desligar sozinho contraria a IT 22 em São Paulo (C.1.6). Ligar é automático. Desligar é manual, no painel da casa de bombas.
Para levar para a prancha
O pressostato é a peça que transforma uma rede pressurizada em um sistema automático. No projeto, ele pede três decisões claras: quantos pressostatos, em que ordem as bombas partem e quais pressões de partida e de parada. O resto é conferir o que a norma do seu estado exige para cada bomba.